Do sangue à arte

Pai e filha, Ignácio de Loyola Brandão e Rita Gullo unem talentos e afetos para compor o espetáculo Solidão no Fundo da Agulha

Recursos similares com efeitos distintos, as palavras cantadas e faladas se complementam para envolver o público num sentimento de nostalgia e intimidade que lembra almoços de família aos domingos. Esse é o clima de Solidão no Fundo da Agulha. A atmosfera familiar vem também das músicas e das memórias contadas, mas principalmente da cumplicidade que toma conta do palco quando pai e filha se dividem entre as histórias e as canções que fazem parte do roteiro.

Solidão no Fundo da Agulha é o resultado da junção de histórias marcantes da trajetória do escritor Ignácio de Loyola Brandão com a interpretação de músicas que marcaram esses momentos, feita pela filha dele, a cantora e atriz Rita Gullo. A apresentação nasceu a partir de um livro que unia textos do escritor, contando algumas de suas memórias, e um DVD com as canções na voz de Rita, mas o formato do projeto tem raízes mais profundas na vida da família. “Sempre tive música em casa. Uso para escrever. Mas também passei a vida ouvindo Rita cantar, e muitas vezes cantar com a mãe, Marcia”, conta o autor. Foi da filha a ideia de disponibilizar junto ao livro do pai um álbum com as canções que acompanhavam por tantos anos seus escritos. Daí nasceu o projeto que, posteriormente, ganhou uma versão viva nos palcos.

Autor de obras renomadas como Zero, Não Verás País Nenhum, Cadeiras Proibidas, O Beijo Não Vem da Boca e Dentes ao Sol, Ignácio de Loyola é jornalista e escritor e, recentemente, tomou posse da cadeira de número 11 na Academia Brasileira de Letras. Conhecido por escrever romances, contos, crônicas e obras infantis, o autor coleciona honrarias como o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, e o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

Com a paixão pela arte e pela música correndo pelas veias, Rita Gullo seguiu um caminho que é, ao mesmo tempo, uma herança e uma conquista: a vida marcada pelas canções entoadas pela mãe, as tias e a avó e o acompanhar da escrita do pai se seguiram de um processo de estudo e aprimoramento que a levaram a uma carreira própria. Entre seus trabalhos já realizados estão dois discos, a participação em diversas peças teatrais e três livros publicados, todos sobre música. Para ela, que sempre foi muito próxima do pai, apresentar o espetáculo ao lado dele só aumentou a admiração: “O que posso dizer é que até hoje me emociono no final e vejo uma pessoa batalhadora, generosa, que construiu sua vida com determinação, curiosidade, sonho e um pouco de loucura”, revela.

No espetáculo, enquanto o escritor narra memórias de diferentes fases de sua vida, a cantora apresenta canções como Amado Mio (Doris Fisher/ Allan Roberts), Valsinha (Chico Buarque e Vinicius de Moraes) e Que reste-t-il de nos amours? (Charles Trenet). Entre os acontecimentos que ganham espaço na narrativa estão desde histórias da infância, como o fascínio pelo filme Gilda, com a atriz Rita Hayworth, até causos da vida como jornalista e escritor.

Rodando o Brasil e o Exterior há seis anos, o espetáculo já proporcionou muitas emoções ao público e aos artistas. Dos inúmeros momentos vividos a partir do projeto, o escritor destaca experiências únicas, como a oportunidade de levar a arte para lugares que parecem até inusitados: “Nunca esqueço uma tarde em uma biblioteca municipal de um bairro de São Paulo, periferia da periferia. Havia apenas sete pessoas. Fizemos o show. Aquelas pessoas tinham ido e precisávamos respeitar. No final, elas tinham lágrimas nos olhos e nos agradeceram, dizendo ‘Nunca vem nada aqui. Foi um dia diferente em nossas vidas. Estamos cheios de novela’”, relembra. Rita lembra a emoção de apresentar o projeto na abertura de um dos principais festivais literários de Portugal: “Tivemos que repetir a dose para aqueles que não puderam comparecer ao evento e ficaram curiosos por causa dos comentários e até para aqueles que quiseram assistir mais uma vez. Esse show é curioso, algumas pessoas assistem dezenas de vezes”.

Solidão no Fundo da Agulha também está na programação da Mostra Sesc de Culturas Cariri. O espetáculo será apresentado no dia 11 de novembro, às 19h, no Senac Crato.

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