Diversidade e espetáculos multiculturais marcam presença na Mostra Sesc de Culturas Cariri

A jornada de muitas pessoas com a migração começa com uma mala cheia de sentimentos conflitantes: a expectativa pelo novo, insegurança de não saber o que está por vir, medo de se afastar de suas origens, suas certezas, sua zona de conforto. Como alternativa a estes receios, muitos dos imigrantes recorrem à arte como forma de resgatar e se manterem próximos da cultura e dos costumes que ficaram para trás.

Consolidando-se como um espaço plural e diversificado, a Mostra Sesc de Culturas Cariri proporciona, em sua 11ª edição, a oportunidade destas pessoas apresentarem suas tradições, línguas, danças e costumes ao público nordestino. Entre as atrações confirmadas no Cariri cearense, estão performances musicais, cênicas e lançamento de livros.

 

Narrativas ímpares

A problemática dos refugiados é uma das que mais chama atenção quando se fala migração atualmente. E não poderia ser diferente, uma vez que, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), até 2015 existiam 20 milhões de pessoas nesta situação no mundo, uma quantidade maior do que a população de países como Chile, Nova Zelândia e Portugal. Este perfil é caracterizado por pessoas que necessitaram abandonar sua terra, casa e, muitas vezes, família, para escapar de conflitos étnicos, políticos, culturais ou religiosos.

A performance Pasado que no pasa, do artista Felipe Salles, aborda questões acerca deste assunto. Com o foco em abrir reflexões sobre os corpos invisibilizados destes refugiados, que perdem suas vidas numa imigração forçada pela necessidade de sobrevivência. Outra pauta levantada na ação diz respeito aos surdos, que são postos à margem da sociedade em virtude da barreira da comunicação.

A dança também tem lugar na Mostra de Culturas Cariri. Montada pela coreógrafa Orly Portal e executada pela Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre, a performance Brazil Beijo é integrante de um projeto que constitui a parceria entre coreógrafos israelenses e companhias de dança profissional brasileiras.

A obra é formada por narrativas e hinos da tribo marroquina Gnawa, escravos que se tornaram uma fonte de orgulho e encontraram sua liberdade pela música e pela dança. Os sons da adaptação feminina da antiga música ritual tribal (geralmente realizada pelos homens), juntamente com ritmos brasileiros e palavras faladas em português, enfatizam um novo sentido de existência e liberdade.

Conexão Brasil x África

Para além de um espaço de diversão, a Mostra dá ao público a chance de conhecer novas temáticas, aprender sobre outras realidades e ter acesso a novos olhares acerca dos mais diversos temas. Este é o interesse de Yannick Delass, nascido na República Democrática do Congo, ao se apresentar no evento. “A minha música é inspirada na minha vida, o que eu vivo é o que eu canto. Mas é verdade que também acabo me sentindo um pouco responsável pela nação, pela sociedade, pelo mundo”, reflete.

O músico, que é compositor, cantor e guitarrista, leva ao público o seu terceiro disco, chamado Espoir, palavra que significa esperança em português. Yannick define seu trabalho como autobiográfico e político, porque “fala da minha vida, das coisas que eu passei, do que eu queria que fosse feito, do Congo, que é o lugar onde eu nasci. E político porque faz uma crítica à política internacional, eu falo da política que eu entendo, que é a política da África”.

Além do trabalho de Delass, esta edição da Mostra recebe o artista plástico Shambuyi Wetu, também nascido no Congo, com sua performance Bagagem. No trabalho, Wetu faz uma reflexão poética sobre a invisibilidade e estereótipos relacionados ao negro africano. A apresentação também aborda questões como discriminação, conflitos sociais, violência e superação.

Outra produção a ser apresentada no evento, com foco na valorização da cultura africana, é o livro Contando África em Contos, da Cia. Colhendo Contos e Diáspora Negra. A obra traz a memória de contos que passeiam pelo continente africano e aborda questões como solidariedade, amizade, respeito e humildade. O trabalho visa preservar, valorizar, resgatar e promover a formação cultural de jovens e adultos, valendo-se, para isso, da estética e cultura africana.

Morando em São Paulo há três anos, Yannick Delass se mostra muito satisfeito em retornar ao Ceará, primeira terra em que pisou ao chegar no Brasil. “Eu me identifico muito com o povo do nordeste, em geral, por sua forma de viver, de levar a vida e, ao mesmo tempo, pelo seu pertencimento ao Brasil. Como músico, eu já andei em muitos lugares do Brasil e percebi que o Nordeste se sente mais brasileiro do que o resto, por não reivindicar sua ascendência, se é de família italiana, francesa. O nordestino é brasileiro”, afirma o músico.

“Quando vejo a história de onde eu nasci, vejo o meu país na atualidade, eu percebo a importância da pessoa valorizar a sua terra. É por isso que eu acredito que o nordeste é uma referência cultural no Brasil, é um berço cultural”, ressalta.

Programação

Artes visuais

Bagagem

Artista: Shambuyi Wetu

Dia: 08/11

Horário: 15h

Local: Ruas da cidade de Juazeiro do Norte

Pasado que no passa

Artista: Felipe Salles

Dia: 08/11

Horário: 17h

Local: Unidade Sesc Juazeiro do Norte

Literatura

Contando África em Contos

Grupo: Cia Colhendo Contos e Diáspora Negra

Dia: 08/11

Horário: 9h

Local: Escola Educar Sesc Juazeiro do Norte

Contando África em Contos

Grupo: Cia Colhendo Contos e Diáspora Negra

Dia: 09/11

Horário: 20h

Local: Praça da Sé – Crato

Música

Espoir

Artista: Yannick Delass

Dia: 09/11

Horário: 20h30

Local: Largo da RFFSA

Artes Cênicas

Brazil Beijo

Artista: Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre

Dia: 10/11

Horário: 21h

Local: Crato

Dia: 11/11

Horário: 19h

Local: Juazeiro

21ª Mostra Sesc de Culturas Cariri

Período: 08 a 12 de novembro

Local: Região do Cariri

Programação: Site www.mostrasescdeculturas.com.br, no aplicativo de celular “Mostra Sesc de Culturas”, disponível para Android e iOS, e redes sociais.

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